quinta-feira, 23 de maio de 2013

Por que um clássico Boca-River ainda é melhor do que um Barcelona-Real


Há alguns dias, enquanto organizava minha viagem à Buenos Aires, nitidamente focada em vivenciar o futebol local, fui questionado com relação aos motivos de preferir presenciar um clássico entre Boca Juniors e River Plate a um envolvendo Barcelona e Real Madrid.

Confesso que à primeira vista pode parecer um pouco de loucura, mas vamos analisar de forma objetiva a questão. Considerando antes uma perspectiva particular, o ambiente que busco em um estádio de futebol é vivenciar o máximo possível o verbo “torcer”, apoiar uma equipe, ser personagem fundamental de uma partida de futebol. Além da participação do torcedor, intensidade, paixão, tensão e guerra são elementos sem os quais acho difícil haver uma emoção que justifique um clássico. Notem que esses são conceitos pessoais. Elementos que busco para justificar a classificação de uma partida na categoria de derby. São essas características, contudo, que se fazem mais presentes atualmente no clássico argentino do que no espanhol.

Fonte: The Guardian

Não à toa, em 2004 o jornal inglês The Observer elegeu o Superclásico o maior espetáculo esportivo para se presenciar antes de morrer, à frente de outras rivalidades como Celtic e Rangers (Escócia), Internazionale e Milan (Itália), Fenerbahçe e Galatasaray (Turquia), Zamalek e Al-Ahli (Egito) e do próprio Barcelona e Real Madrid. O periódico britânico considera a partida muito mais que um jogo, e não erra em suas palavras. É como se fosse um campeonato dentro de outro campeonato. Algo à parte da Primera División argentina.

Em Buenos Aires, em busca de um ingresso para o clássico, conversei com um cambista, atividade disseminada e relativamente bem organizada por lá, que resumiu a importância da partida contando que um dirigente da Premier League britânica relatou que teve a melhor experiência da sua vida assistindo um Superclássico. Não encontrei as fontes da notícia, mas próximo do estádio, no dia do jogo, era fácil perceber a presença constante de ingleses se juntando a torcida xeneize. Um deles, inclusive, buscava vender o ingresso que havia comprado por 300 euros na internet por que precisaria retornar para Europa por uma emergência familiar.

Ok! Mas e o clássico espanhol? Tem, assim como outros, boa parte dos elementos que considero necessários. Intensidade, paixão, tensão e até mesmo o sentimento de guerra entre os clubes (acirrada ainda mais nos últimos tempos) se fazem presentes. Mas falta a participação do torcedor. A voz ativa que se faz presente na Argentina é cada vez menos importante no país ibérico. Notem como nas últimas edições do duelo Barcelona-Real Madrid poucas vezes se houve falar em torcedores. O foco é exclusivamente nos clubes, sejam eles representados por diretoria ou jogadores. Até mesmo os juízes ganharam algum protagonismo recentemente. Mas os torcedores, de fato, estão alijados há tempos desse posto.

E quando digo torcedores, é bom que se diga, não me refiro aqueles espectadores que pagam valores exorbitantes para adquirir uma entrada, presenciam o jogo de suas poltronas (sentados em 95% do tempo) e aplaudem gols, vaiam rivais e saem satisfeitos, se possível dando uma passada na loja oficial do clube, comprando alguns artigos e comparando a partida a um espetáculo. Esses são personagens que também fazem parte do ambiente, mas não são propriamente os torcedores dos clubes. Esses são aqueles que, na La Bombonera, por exemplo, propositalmente são alocados acima dos vestiários visitantes, de forma a fazer pulsar as arquibancadas minutos antes da entrada em campo, para colocar ainda mais pressão e temor no adversário.

“Ah! Mas o Superclásico se valorizou muito e estão pagando caro pelos ingressos também”. Sim, mas a valorização do clássico deu-se exatamente pela carência de torcedores europeus e até mesmo sul-americanos por emoções do gênero. O inglês que paga cerca de 300 dólares/euros para entrar na La Bombonera ou no Monumental de Núñez não se contenta em assistir o jogo. Quer participar. Se possível, se infiltrando em alguma das organizadas e sendo parte ativa do clássico. A busca pelo conforto, tranquilidade e espetáculo ele tem próximo de casa, nos jogos da Premier League ou qualquer outro campeonato no Velho Continenta.

Essa característica carece de um estudo mais detalhado, mas Nick Hornby, em seu espetacular “Fever Pitch”, resumiu bem como o processo de elitização pelo qual passa o futebol europeu acaba prejudicando seu próprio produto, uma vez que o prazer que um estádio de futebol proporciona está intrinsecamente ligado à atmosfera do mesmo. E, sem a torcida, ingrediente crucial da experiência futebolística, ninguém se daria ao trabalho de ir ao jogo. O trecho a seguir, retirado do “Febre de Bola”, retrata bem essa situação:

“Arsenal and Manchester United and the rest are under the impression that people pay to watch Paul Merson and Ryan Giggs, and of course they do. But many of them - the people in the twenty pound seats, and the guys in the executive boxes - also pay to watch people watching Paul Merson (or to listen to people shouting at him). Who would buy an executive box if the stadium were filled with executives? The club sold the boxes on the understanding that the atmosphere came free, and so the North Bank generated as much income as any of the players ever did. Who’ll make the noise now? Will the suburban middle-class kids and their mums and dads still come if they have to generate it themselves? Or will they feel that they have been conned? Because in effect the clubs have sold them tickets to a show in which the principal attraction has been moved to make room for them.”

Quer mais precisão do que isso? É simplesmente por esse motivo que a atmosfera do futebol ainda sobrevive ao comodismo do PPV, da cervejinha na geladeira e do sofá de casa. A atmosfera deve, obrigatoriamente, ser levada em consideração. Uma atmosfera feita por torcedores.

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Sábado, simultaneamente a estreia do Palmeiras na Série B, ocorre a decisão da Uefa Champions League, opondo Bayern e Borussia Dortmund (uma das torcidas mais bacanas de Europa). Pelos motivos acima expostos nem considero deixar de ver meu time em campo para assistir uma partida do outro lado do mundo via televisão. “Caramba, mas é a final da Champions”! E? Deverá ser um jogo legal, certamente. E até espero ver o compacto mais tarde. Mas perder um jogo ao vivo do Palmeiras por isso? Jamais. 

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