Há alguns dias,
enquanto organizava minha viagem à Buenos Aires, nitidamente focada em
vivenciar o futebol local, fui questionado com relação aos motivos de preferir
presenciar um clássico entre Boca Juniors e River Plate a um envolvendo
Barcelona e Real Madrid.
Confesso que à
primeira vista pode parecer um pouco de loucura, mas vamos analisar de forma
objetiva a questão. Considerando antes uma perspectiva particular, o ambiente
que busco em um estádio de futebol é vivenciar o máximo possível o verbo
“torcer”, apoiar uma equipe, ser personagem fundamental de uma partida de
futebol. Além da participação do torcedor, intensidade, paixão, tensão e guerra
são elementos sem os quais acho difícil haver uma emoção que justifique um
clássico. Notem que esses são conceitos pessoais. Elementos que busco para
justificar a classificação de uma partida na categoria de derby. São essas
características, contudo, que se fazem mais presentes atualmente no clássico
argentino do que no espanhol.
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| Fonte: The Guardian |
Não à toa, em 2004 o
jornal inglês The Observer elegeu o Superclásico o maior espetáculo esportivo
para se presenciar antes de morrer, à frente de outras rivalidades como Celtic
e Rangers (Escócia), Internazionale e Milan (Itália), Fenerbahçe e Galatasaray
(Turquia), Zamalek e Al-Ahli (Egito) e do próprio Barcelona e Real Madrid. O
periódico britânico considera a partida muito mais que um jogo, e não erra em
suas palavras. É como se fosse um campeonato dentro de outro campeonato. Algo à
parte da Primera División argentina.
Em Buenos Aires, em
busca de um ingresso para o clássico, conversei com um cambista, atividade disseminada
e relativamente bem organizada por lá, que resumiu a importância da partida
contando que um dirigente da Premier League britânica relatou que teve a melhor
experiência da sua vida assistindo um Superclássico. Não encontrei as fontes da
notícia, mas próximo do estádio, no dia do jogo, era fácil perceber a presença
constante de ingleses se juntando a torcida xeneize. Um deles, inclusive,
buscava vender o ingresso que havia comprado por 300 euros na internet por que
precisaria retornar para Europa por uma emergência familiar.
Ok! Mas e o clássico
espanhol? Tem, assim como outros, boa parte dos elementos que considero
necessários. Intensidade, paixão, tensão e até mesmo o sentimento de guerra
entre os clubes (acirrada ainda mais nos últimos tempos) se fazem presentes.
Mas falta a participação do torcedor. A voz ativa que se faz presente na
Argentina é cada vez menos importante no país ibérico. Notem como nas últimas
edições do duelo Barcelona-Real Madrid poucas vezes se houve falar em
torcedores. O foco é exclusivamente nos clubes, sejam eles representados por
diretoria ou jogadores. Até mesmo os juízes ganharam algum protagonismo
recentemente. Mas os torcedores, de fato, estão alijados há tempos desse posto.
E quando digo
torcedores, é bom que se diga, não me refiro aqueles espectadores que pagam
valores exorbitantes para adquirir uma entrada, presenciam o jogo de suas
poltronas (sentados em 95% do tempo) e aplaudem gols, vaiam rivais e saem
satisfeitos, se possível dando uma passada na loja oficial do clube, comprando
alguns artigos e comparando a partida a um espetáculo. Esses são personagens
que também fazem parte do ambiente, mas não são propriamente os torcedores dos
clubes. Esses são aqueles que, na La Bombonera, por exemplo, propositalmente
são alocados acima dos vestiários visitantes, de forma a fazer pulsar as
arquibancadas minutos antes da entrada em campo, para colocar ainda mais
pressão e temor no adversário.
“Ah! Mas o
Superclásico se valorizou muito e estão pagando caro pelos ingressos também”.
Sim, mas a valorização do clássico deu-se exatamente pela carência de
torcedores europeus e até mesmo sul-americanos por emoções do gênero. O inglês
que paga cerca de 300 dólares/euros para entrar na La Bombonera ou no
Monumental de Núñez não se contenta em assistir o jogo. Quer participar. Se
possível, se infiltrando em alguma das organizadas e sendo parte ativa do clássico.
A busca pelo conforto, tranquilidade e espetáculo ele tem próximo de casa, nos
jogos da Premier League ou qualquer outro campeonato no Velho Continenta.
Essa característica
carece de um estudo mais detalhado, mas Nick Hornby, em seu espetacular “Fever
Pitch”, resumiu bem como o processo de elitização pelo qual passa o futebol
europeu acaba prejudicando seu próprio produto, uma vez que o prazer que um
estádio de futebol proporciona está intrinsecamente ligado à atmosfera do
mesmo. E, sem a torcida, ingrediente crucial da experiência futebolística, ninguém
se daria ao trabalho de ir ao jogo. O trecho a seguir, retirado do “Febre de
Bola”, retrata bem essa situação:
“Arsenal and Manchester United and the rest are under the impression
that people pay to watch Paul Merson and Ryan Giggs, and of course they do. But
many of them - the people in the twenty pound seats, and the guys in the
executive boxes - also pay to watch people watching Paul Merson (or to listen
to people shouting at him). Who would buy an executive box if the stadium were
filled with executives? The club sold the boxes on the understanding that the
atmosphere came free, and so the North Bank generated as much income as any of
the players ever did. Who’ll make the noise now? Will the suburban middle-class
kids and their mums and dads still come if they have to generate it themselves?
Or will they feel that they have been conned? Because in effect the clubs have
sold them tickets to a show in which the principal attraction has been moved to
make room for them.”
Quer mais precisão do
que isso? É simplesmente por esse motivo que a atmosfera do futebol ainda
sobrevive ao comodismo do PPV, da cervejinha na geladeira e do sofá de casa. A
atmosfera deve, obrigatoriamente, ser levada em consideração. Uma atmosfera
feita por torcedores.
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Sábado,
simultaneamente a estreia do Palmeiras na Série B, ocorre a decisão da Uefa
Champions League, opondo Bayern e Borussia Dortmund (uma das torcidas mais
bacanas de Europa). Pelos motivos acima expostos nem considero deixar de ver
meu time em campo para assistir uma partida do outro lado do mundo via televisão.
“Caramba, mas é a final da Champions”! E? Deverá ser um jogo legal, certamente.
E até espero ver o compacto mais tarde. Mas perder um jogo ao vivo do Palmeiras
por isso? Jamais.