terça-feira, 28 de maio de 2013

R$ 60: a derrota do Torcedor palestrino

4.612 ingressos vendidos. Número ainda menor de torcedores presentes ao estádio. Mais do que a partida em si, o que pôde ser comprovado no último sábado, em Itu, é que não existe futebol sem torcida. Sem ela, o esporte perder sua razão de ser. E a prova disso foi constatada após o abusivo valor cobrado na entrada mais barata para o duelo de estreia do Palmeiras na Série B do Campeonato Brasileiro.

Isso mesmo. Fomos rebaixados, humilhados, montaram um time medíocre e mesmo assim acham plausível cobrar o valor mais caro de todas as divisões do futebol brasileiro (não me venha falar da aberração Santos x Flamengo no Mané Garrincha, por favor!) na primeira rodada.

O resultado: um estádio sem torcidas organizadas, sem nem mesmo a tradicional torcida que acompanha o time, repleto de consumidores/espectadores, sem alma e sem time. Quem esteve presente certamente vivenciou uma das piores experiências em arquibancadas da vida. Torcida quieta, cantos esparsos, atmosfera nula. O absurdo ficou claro quando foi possível escutar os gritos do lateral-direito após se chocar com o adversário.

Aliás, vale a pena ressaltar, os visitantes puderam se sentir em casa. Perdemos uma das poucas vantagens com a qual pudemos sempre contar em nossa história: o fator casa. Seja ele empurrando ou criticando, mas, acima de tudo, ao lado do time.

O que se viu em campo não foi nada mais do que um reflexo da apatia nas arquibancadas. Sem incentivo e com um time claramente abaixo do exigido num clube do tamanho do Palestra, sofremos, como deveremos sofrer no restante da competição. Que tem tudo para ser mais difícil do que o previsto. Os três pontos vieram, mas certamente perdemos mais do que ganhamos no último sábado. Somamos três pontos essenciais na caminhada para retomarmos o nosso lugar de direito, mas nos distanciamos um pouco mais de um dos pilares de nossa tradição.

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A atitude das organizadas foi louvável. Unidas, viajaram até Itu, deixando claro que mesmo sob as condições impostas eram capazes de se fazer presentes. Somente não o fariam em solidariedade ao principal ativo do clube, muitas vezes (como nesse caso) negligenciado por quem o dirige: a torcida. A SEP é de todas as classes. Sempre foi e sempre será.

Não houve violência, não houve confusão, não houve torcida, não houve futebol. Por um dia venceram aqueles que estão transformando o futebol na única coisa que ele nunca foi: um negócio. E mandando-o para longe de suas raízes. Ainda que não por muito tempo...





quinta-feira, 23 de maio de 2013

Por que um clássico Boca-River ainda é melhor do que um Barcelona-Real


Há alguns dias, enquanto organizava minha viagem à Buenos Aires, nitidamente focada em vivenciar o futebol local, fui questionado com relação aos motivos de preferir presenciar um clássico entre Boca Juniors e River Plate a um envolvendo Barcelona e Real Madrid.

Confesso que à primeira vista pode parecer um pouco de loucura, mas vamos analisar de forma objetiva a questão. Considerando antes uma perspectiva particular, o ambiente que busco em um estádio de futebol é vivenciar o máximo possível o verbo “torcer”, apoiar uma equipe, ser personagem fundamental de uma partida de futebol. Além da participação do torcedor, intensidade, paixão, tensão e guerra são elementos sem os quais acho difícil haver uma emoção que justifique um clássico. Notem que esses são conceitos pessoais. Elementos que busco para justificar a classificação de uma partida na categoria de derby. São essas características, contudo, que se fazem mais presentes atualmente no clássico argentino do que no espanhol.

Fonte: The Guardian

Não à toa, em 2004 o jornal inglês The Observer elegeu o Superclásico o maior espetáculo esportivo para se presenciar antes de morrer, à frente de outras rivalidades como Celtic e Rangers (Escócia), Internazionale e Milan (Itália), Fenerbahçe e Galatasaray (Turquia), Zamalek e Al-Ahli (Egito) e do próprio Barcelona e Real Madrid. O periódico britânico considera a partida muito mais que um jogo, e não erra em suas palavras. É como se fosse um campeonato dentro de outro campeonato. Algo à parte da Primera División argentina.

Em Buenos Aires, em busca de um ingresso para o clássico, conversei com um cambista, atividade disseminada e relativamente bem organizada por lá, que resumiu a importância da partida contando que um dirigente da Premier League britânica relatou que teve a melhor experiência da sua vida assistindo um Superclássico. Não encontrei as fontes da notícia, mas próximo do estádio, no dia do jogo, era fácil perceber a presença constante de ingleses se juntando a torcida xeneize. Um deles, inclusive, buscava vender o ingresso que havia comprado por 300 euros na internet por que precisaria retornar para Europa por uma emergência familiar.

Ok! Mas e o clássico espanhol? Tem, assim como outros, boa parte dos elementos que considero necessários. Intensidade, paixão, tensão e até mesmo o sentimento de guerra entre os clubes (acirrada ainda mais nos últimos tempos) se fazem presentes. Mas falta a participação do torcedor. A voz ativa que se faz presente na Argentina é cada vez menos importante no país ibérico. Notem como nas últimas edições do duelo Barcelona-Real Madrid poucas vezes se houve falar em torcedores. O foco é exclusivamente nos clubes, sejam eles representados por diretoria ou jogadores. Até mesmo os juízes ganharam algum protagonismo recentemente. Mas os torcedores, de fato, estão alijados há tempos desse posto.

E quando digo torcedores, é bom que se diga, não me refiro aqueles espectadores que pagam valores exorbitantes para adquirir uma entrada, presenciam o jogo de suas poltronas (sentados em 95% do tempo) e aplaudem gols, vaiam rivais e saem satisfeitos, se possível dando uma passada na loja oficial do clube, comprando alguns artigos e comparando a partida a um espetáculo. Esses são personagens que também fazem parte do ambiente, mas não são propriamente os torcedores dos clubes. Esses são aqueles que, na La Bombonera, por exemplo, propositalmente são alocados acima dos vestiários visitantes, de forma a fazer pulsar as arquibancadas minutos antes da entrada em campo, para colocar ainda mais pressão e temor no adversário.

“Ah! Mas o Superclásico se valorizou muito e estão pagando caro pelos ingressos também”. Sim, mas a valorização do clássico deu-se exatamente pela carência de torcedores europeus e até mesmo sul-americanos por emoções do gênero. O inglês que paga cerca de 300 dólares/euros para entrar na La Bombonera ou no Monumental de Núñez não se contenta em assistir o jogo. Quer participar. Se possível, se infiltrando em alguma das organizadas e sendo parte ativa do clássico. A busca pelo conforto, tranquilidade e espetáculo ele tem próximo de casa, nos jogos da Premier League ou qualquer outro campeonato no Velho Continenta.

Essa característica carece de um estudo mais detalhado, mas Nick Hornby, em seu espetacular “Fever Pitch”, resumiu bem como o processo de elitização pelo qual passa o futebol europeu acaba prejudicando seu próprio produto, uma vez que o prazer que um estádio de futebol proporciona está intrinsecamente ligado à atmosfera do mesmo. E, sem a torcida, ingrediente crucial da experiência futebolística, ninguém se daria ao trabalho de ir ao jogo. O trecho a seguir, retirado do “Febre de Bola”, retrata bem essa situação:

“Arsenal and Manchester United and the rest are under the impression that people pay to watch Paul Merson and Ryan Giggs, and of course they do. But many of them - the people in the twenty pound seats, and the guys in the executive boxes - also pay to watch people watching Paul Merson (or to listen to people shouting at him). Who would buy an executive box if the stadium were filled with executives? The club sold the boxes on the understanding that the atmosphere came free, and so the North Bank generated as much income as any of the players ever did. Who’ll make the noise now? Will the suburban middle-class kids and their mums and dads still come if they have to generate it themselves? Or will they feel that they have been conned? Because in effect the clubs have sold them tickets to a show in which the principal attraction has been moved to make room for them.”

Quer mais precisão do que isso? É simplesmente por esse motivo que a atmosfera do futebol ainda sobrevive ao comodismo do PPV, da cervejinha na geladeira e do sofá de casa. A atmosfera deve, obrigatoriamente, ser levada em consideração. Uma atmosfera feita por torcedores.

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Sábado, simultaneamente a estreia do Palmeiras na Série B, ocorre a decisão da Uefa Champions League, opondo Bayern e Borussia Dortmund (uma das torcidas mais bacanas de Europa). Pelos motivos acima expostos nem considero deixar de ver meu time em campo para assistir uma partida do outro lado do mundo via televisão. “Caramba, mas é a final da Champions”! E? Deverá ser um jogo legal, certamente. E até espero ver o compacto mais tarde. Mas perder um jogo ao vivo do Palmeiras por isso? Jamais. 

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Paramos por aqui


Não era preciso muito para imaginar que o Palmeiras não iria longe na Copa Libertadores: moral baixa após novo rebaixamento, elenco medíocre, troca de poder por “gestão profissional” que brada a todo momento que não há dinheiro, falta de recursos, perda dos principais destaques e por aí segue uma série de decepções. O que entristece é ver mais uma vez o time ser superado sem de fato entrar na disputa. Colocando fé apenas em uma característica (garra/superação) que, é bom lembrar, nunca foi “a” virtude da história palestrina.

Assim, a queda chegaria a qualquer momento. Na verdade, começamos essa edição do torneio que consideramos nossa “obsessão” já eliminados. Se não fosse ontem , seria em algum momento. E isso nós sabíamos. Mas, como torcedores, jamais deixamos de acreditar. É obrigação. É natural. É da nossa raiz.

Não sou daqueles que apontam o goleiro como o único culpado. Culpa mesmo têm aqueles que lá o colocaram. Os mesmos que foram contra a contratação de um arqueiro experiente no começo do ano por julgar que precisamos valorizar a nossa “escola de goleiros”. Se ele estava em campo ontem, depois das incríveis falhas no ano passado e no último jogo da primeira fase do campeonato paulista, ninguém pode dizer que foi uma surpresa. A falha veio no momento errado, mas ela viria. Consequências de um elenco sem opções e/ou com opções medíocres.

A arquibancada, e todos que nela se fizeram presentes, fez sua parte. Vibrou, apoiou, incendiou a cancha e seus componentes. Confesso que poucas vezes vi o bloqueio das ruas laterais do Pacaembu como ontem. A festa estava preparada. Mas ficará guardada para o próximo campeonato.

Caímos novamente. E digo caímos, por que a torcida caiu junto. Mais uma vez. E é bom que se lembrem, não só os presentes ontem ao Pacaembu, mas todos os palmeirenses, que diretores/conselheiros, jogadores, todos passam. Mas nós não. Sofremos agora e sofreremos sempre. Mais do que qualquer outro componente da SEP. Mas continuamos com o dever de se fazer presentes. Afinal, se todos resolvessem sumir ou entregar seus cargos (ah, como seria bom!), ainda assim restaríamos nós, torcida.

E que venham os rincões da Série B! Estaremos contigo, Palmeiras!




quarta-feira, 8 de maio de 2013

Um pouco de Palmeiras e Buenos Aires


Antes, vale a explicação: o blog ficou sem atualização por dois motivos. O primeiro foi a angústia da derrota em Itu, na última partida da primeira fase do campeonato paulista, aliada à impossibilidade de obter um ingresso para o duelo contra o Santos, para o qual os sardinhas fizeram questão de nos destinar uma carga mínima. Não entrarei no mérito da questão, já que o regulamento permite essa aberração, fazendo com que um jogo que tinha tudo para se tornar um clássico e um grande duelo nas arquibancadas ficasse restrito aos 22 jogadores em campo e às transmissões da TV. Mas sem presença garantida na arquibancada durante a semifinal, e como a ideia do "Torcedor de Bancada" é justamente trazer os reflexos da partida in loco não fazia muito sentido falar de partidas nas quais não estive presente.

Em campo, o Palmeiras mostrou o que o elenco realmente tem (ou não): raça e vontade. E só. Infelizmente, é pouco. E enquanto não montarmos times dignos da nossa tradição estaremos sujeitos a decepções (Itu) e eliminações (Santos) como essas. Algo que já se tornou constante e corriqueiro na última década. De todo modo, seguem abaixo as fotos do estádio Novelli Júnior, no duelo contra o Ituano. E vale um adendo: o lugar melhorou muito desde que estive por lá. A reforma fez bem ao estádio e tornou-o uma opção interessante aos jogos nos quais o Palestra estiver obrigado a jogar longe de São Paulo. E alguns veículos já divulgaram que a decisão da diretoria nesse sentido já está tomada. Ótimo.





O segundo motivo é, digamos, mais desculpável: realizando um sonho antigo, estive pela primeira vez em Buenos Aires, durante seis dias, aproveitando, claro, a pausa nas partidas do Palmeiras, que jogaria em Tijuana, no México (se os caras disputam a Concachampions, por que cazzo participam da Libertadores?). O motivo da viagem foi principalmente futebolístico. O objetivo era conhecer a realidade de uma cidade que respira e vive futebol. E vale dizer: meta mais do que atingida.

Graças ao auxílio preciso das dicas do palestrino Rodrigo Barneschi, do blog Forza Palestra, referência no que remete à arquibancada, Palmeiras e futebol argentino, tive a oportunidade de conhecer estádios e museus de Boca e River, as canchas de Argentinos Juniors e Ferro Carril Oeste e assistir ao duelo entre Racing x Vélez, no Cilindro, em Avellaneda.

Pausa para uma constatação: depois de vivenciar essa experiência, me recuso a utilizar o termo “assistir” para se referir ao que vi por lá. Até por que o apoio e os cantos de incentivo fazem com que o torcedor presente aos estádios em Buenos Aires seja muito mais do que parte do jogo, mas a essência de tudo o que rola dentro de campo.

Não preciso nem falar do quanto a experiência do contato com as hinchadas me tornou ainda mais torcedor, no sentido estrito da palavra. A ideia agora é a criação de alguns posts em sequência relatando o que pôde ser sentido e visto de forma mais detalhada. Farei aos poucos, mas a ideia é aproveitar os espaços entre as partidas do Palmeiras para publicá-los.

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- Decepção é retornar e me deparar com algo como a matéria da revista “sãopaulo”, publicada pela Folha aos domingos, que pode ser conferida nesse link. Estão tentando de todos os modos matar o futebol. Isso é fato. Mas ler coisas do tipo "O sofazinho é mais negócio, né?", "Para ele, que nunca presenciou pancadaria, o desconforto basta para evitar o estádio" e "conta o empresário sobre o único jogo que assistiu ao vivo em 2012" é triste. Uma pergunta válida: a reportagem não poderia entrevistar nenhum torcedor (comum ou organizado) que vai ao estádio com frequência? É tão difícil assim?

- Passagem comprada para Recife (contra o Sport) e Florianópolis (contra o Figueirense). A Série B promete um giro completo.